14 maio, 2013

Lembranças da Primavera | Parte 2

Conto divido em duas partes. Parte 1.


Lembro como se fosse hoje daquela velha tarde de primavera. Lembro da brisa que nos refrescava, do sol que nos esquentava, das flores que deixavam o cenário ainda mais suave e colorido, dos pássaros cantando alegres pelos ares, que, especialmente, enchiam-me o coração de uma felicidade imensa em ter conhecido um rapaz tão bom em minha vida, que tinha como objetivo, simplesmente viver intensamente ao lado das pessoas que amava, aproveitando cada doce segundo.
Mas também me lembro bem do quanto chorei naquele dia.

Depois de um beijo delicado, devemos ter adormecido no gramado do parque, não havia visto as horas passar. É então que eu abro os olhos, após sei lá quando tempo dormindo, e me deparo com uma paisagem de fim de tarde, o pôr do sol grandioso em minha frente, que rapidamente me fez sorrir. E então eu me virei para você e mexi de leve em seu braço, tentando acordá-lo. Você não emitiu uma única reação. Mexo novamente, acompanhada do pronunciamento de seu nome. Nada.
Meu coração acelera.
Chamo-lhe um pouco mais alto, e só então noto seu rosto sereno. Uma lágrima despencara de meu olho naquele mesmo instante, e logo me vi chorando abertamente ainda lhe observando. Aquilo não podia estar acontecendo, mas estava.
E já era tarde demais.
O resto são meras lembranças perdidas no tempo. Uma ambulância chegando ao local, após um morador detectar o meu choro em sua direção; parentes e amigos chorando em um corredor de hospital; um médico engravatado trazendo consigo uma prancheta e um semblante abatido; e, por fim, uma garota de cabelos ruivos e ondulados, chorando sentada no fim de um corredor não muito distante.
Aqui, sentada na varanda da janela, vendo a neve cair calmamente por dentre os galhos da árvore, o meu velho semblante abatido de sempre está em meu rosto, ao mesmo tempo em que luto comigo mesma para desfazê-lo.
Foram anos ao seu lado, seja brincando na gangorra do parque, ou aos beijos próximo à uma árvore, em um dia de chuva. Quaisquer que sejam os momentos, foram todos registrados em meu coração, e assim ficarão. Porque a gente já sabia que um dia isso iria acontecer. Já sabíamos que correríamos esse risco, desde aquela tarde de outono em que você chegou à minha varanda com um exame médico, aos 16 anos.
Hoje, então, me conformo. Mesmo ciente de que, lá no fundo, o meu coração ainda chama o seu nome, ainda tem o seu nome guardado nele, ainda pensa unicamente em você.
A neve continua a cair calmamente, enquanto mil pensamentos rodeiam a minha mente. De repente, algo peludo encosta na minha perna. Olho para o chão e vejo Hope pedindo colo, amoroso. Sorrio para o outro ser que, assim como eu, tanto sentiu falta de alguém maravilhoso, e, enquanto coloco-o do meu lado na beirada da varanda, penso sobre o quanto as coisas mudam.
Antigamente, eu nem sonhava em me aproximar daquele labrador. Hoje em dia, porém, não sei mais viver sem o ser amoroso tão bem treinado que até um certo tempo, pertencia a alguém tão especial. O mundo dá voltas mesmo. E hoje ele é mais do que um tesouro para mim, assim como aquelas lembranças guardadas no coração.


2 comentários:

  1. Lindo! :') Triste, porém lindo... ♥

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    1. Bem, o conto é meio que realista e mais puxado para o drama, então... Mas fico feliz que tenha gostado! ♥

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