09 dezembro, 2013

[WebSérie #2] A Fórmula do Amor - Capítulo 10

Este capítulo é parte integrante da WebSérie original "Legallt Friends", escrita por Sâmella Raissa. Para ter acesso aos capítulos anteriores, clique aqui. Favor não copiar quaisquer partes do texto sem a devida autorização da autora. 

Sobre falta de bom senso e príncipes ogros

Eu estava vendo a hora em que um grande letreiro apareceria à minha frente dizendo: “Parabéns! Você está sendo vítima de um complô universal!”, porque só isso para explicar tudo o que aconteceu em seguida, naquele dia.
Aquele dia de trabalho, ao contrário do que esperei que pudesse ser, transcorreu completamente normal e rotineiro; mesmos clientes, mesmas conversas de duas amigas fofoqueiras e moradoras do bairro há anos, mesmos momentos vagos e uma mesma cara emburra ao meu lado no balcão – só que, ao contrário do que de costume, essa cara emburrada não pertencia à Andrea, mas, sim, ao seu irmão. Falando nela, inclusive, tentei puxar conversa para saber se estava tudo bem com ela, mas o rapaz não parecia ter lá tanta educação. Suas respostas foram tão monossilábicas que, por um instante, me senti estar falando com um robô.
– Você por acaso é algum tipo de robô? Porque, na boa, respostas monossilábicas assim não são muito... hum... cômodas, sabe? – Falei de repente, tentando soar descontraída para não causar muito clima.
O que, infelizmente, não adiantou, devo ressaltar.
– Agora vai me dizer o que e como agir? Ah, me poupe. – Bufou, a voz em puro desdém. – Perdoe-me se a madame se sente incomodada com isso, mas isso não lhe diz respeito.
– Ih, nervosinho, calma, foi apenas um comentário amigável, caso não tenha percebido. – Defendi-me, afastando-me sutilmente daquele ser petulante. – Sabe o significado da palavra “descontração”?
– Lamento informar, mas essa palavra está totalmente fora de meu dicionário pessoal. – Sua voz era firme e, juntamente ao tom sério, também podia-se sentir um toque de grosseria, e, antes que eu pudesse retrucar algo mais, o telefone tocou e ele afastou-se para atender. Fiquei com cara de tacho e demorei alguns segundos para recompor a postura.
A educação e a etiqueta devem tê-lo abandonado logo após o nascimento, afinal.

Faltava cerca de meia hora para o fim do expediente quando, de repente, começou a chover. E não era uma típica chuvinha do mês de Maio, não; se assimilava bastante a uma tempestade tropical, mudando apenas o fato óbvio de que morávamos numa região completamente urbanizada. E à medida que as pessoas corriam apressadas na rua e logo passavam a andar apenas com carro, internamente eu entrava em desespero. Hoje era o dia de mamãe ir visitar uma colega que estava internada, e papai só sairia do trabalho às 20h. Provavelmente eu chegaria em casa parecendo um pinto molhado, mesmo.
Enquanto eu devaneava em desespero, porém, fui surpreendida por um estrondo vindo da porta dos funcionários, e reparei que Wesley já não se encontrava mais no ambiente. Corri até a porta e abri-a, recebendo alguns “respingos” não tão leves em troca.
– Wesley, onde você vai?! O expediente ainda não acabou! – Gritei-lhe, vendo apenas sua silhueta próxima a um Ford Ka preto. – Espera aí, você está de carro?
– Eu nem trabalho aqui realmente para me importar com os horários! – Ele respondeu, abrindo a porta do veículo. E, dando atenção à outra pergunta que fiz anteriormente, concluiu: – E, não, não vou te dar uma carona. – Entrou, fechando a porta num baque e deixando o estabelecimento rapidamente. Fiquei com cara de tacho – novamente – observando seu carro sumir aos poucos por dentre as ruas alagadas e um tanto quanto escuras; já se aproximava das 18h, afinal.
Eu podia ter ficado ali, com cara de abandonada, pelo resto da noite, mas um novo barulho vindo da entrada da farmácia me acordou para a vida, e bastou eu me virar para ver minha tia Olívia, esposa de Marcos, adentrar ao estabelecimento, seguida por Marcos; ambos igualmente encharcados e ofegantes. A tempestade pelo jeito estava bem mais forte do que parecia. Estavam se recompondo da situação quando eu me aproximei, e Marcos olhou-me assustado e surpreso.
– O que você ainda faz aqui, Susana? Eu me lembro de ter telefonado para avisar sobre o fim mais cedo do expediente, por causa da previsão dessa chuva terrível. – Ele me encarava, sério. – Cadê o Wesley?
Encolhi-me consideravelmente ao responder: – Ele já saiu. Mas achei que ele estava cabulando o expediente antes do tempo, eu não sabia que você iria encerrar mais cedo. – Ele perguntou-me sobre o telefonema, então, que havia dado mais à tarde, e eu retruquei que não havia sido informada.
– Por que não estou surpreso com aquele rapaz, de novo, hein? – Suspirou rapidamente. Então ele pediu que Olívia entrasse logo – andar de cima – enquanto ele anunciou que iria me deixar em casa. Foi a minha vez de suspirar, de puro alívio, e tão logo fechamos a farmácia e entramos no carro. As ruas estavam realmente alagadas e a sinalização estava um caos, sem contar com os vidros borrados para dirigir, mas, graças a Deus, deu tudo certo no caminho e eu logo me vi em casa, já passando das 22h30, e a chuva ainda acontecendo do lado de fora do meu quarto aconchegante. Mas não deixei de pensar que, caso o Wesley tivesse tido um pouco de bom senso, isso não teria acontecido. Espero não ter mais contato algum com aquele ser, para seu próprio bem.

Um comentário:

  1. O Wesley superou totalmente o nível máximo de idiota! Que ser humano mais sem-noção! Se eu fosse a Susana, não sei como controlaria minha raiva ao vê-lo novamente (se é que eles vão se reencontrar).
    Capítulo super bem escrito - como sempre -, estou ansiosa pela continuação!
    Beijos ♥

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