26 dezembro, 2013

[WebSérie #2] A Fórmula do Amor - Capítulo 12

Este capítulo é parte integrante da WebSérie original "Legally Friends", escrita por Sâmella Raissa. Para ter acesso aos capítulos anteriores, clique aqui. Favor não copiar quaisquer partes do texto sem a devida autorização da autora. 

Essa ladainha de amor verdadeiro

– Wesley, pode me ajudar aqui?
Era início de semana, e, como combinado, lá estava Wesley trabalhando ao meu lado no balcão da farmácia, ambos felizmente acompanhados pela supervisão de Marcos, que estava meio com um pé atrás com ele desde que me deixara plantada aqui no dia da tempestade. Agora, passado o susto e qualquer resquício de mágoa – diga-se apenas de passagem, de minha parte –, Marcos acabara de pedir a ajuda de Wesley para organizar algumas caixas no depósito, e pude jurar ouvir um bufo saindo da boca do rapaz antes que deixasse seu posto. É, parece que aquele ia ser mais um longo dia de trabalho...
Em um dado momento da tarde, Marcos precisou sair para fazer uma entrega do outro lado da cidade, deixando-me então como chefe durante sua ausência, o que gerara mais um bufo por parte de um Wesley muito mal-humorado ao meu lado. Como a boa profissional que eu esperava me tornar, desde já, tentei me manter o máximo neutra quanto a presença dele que me foi possível, mas isso meio que foi por água abaixo depois de alguns minutos.
– Obrigada, e volte sempre! – Dei o meu melhor sorriso para o gentil casal de idosos que acabara de deixar o estabelecimento, admirando e suspirando rapidamente com o leve clima de romance que pairara no ar por alguns segundos. Aquele casal já fazia parte da clientela assídua da farmácia, e não bastasse isso sempre eram vistos juntos, e seus olhares dirigidos um ao outro já revelava o motivo: eles se amavam. Eu adorava observá-los juntos quando os via, torcia para viver uma história de amor parecida no futuro.
Porém, enquanto este sonho rondava minha mente, fazendo-me sorrir e suspirar como a boa romântica que sou, fui chamada a atenção por um pigarrear insistente ao meu lado, que logo me fizera sair de um sonho direto para um pesadelo. – O que foi agora, Wesley? – Indaguei olhando-o com o olhar mais irritado que pude.

– Eles são sempre assim? – Indagou-me de volta, referindo-se ao casal de idosos.
– Assim, como? Apaixonados? Gentis? Carinhosos? Educados? – Voltei meu olhar para a porta por onde o casal adentrara, a expressão sonhadora de volta à minha face. – Eles vêm sempre aqui, juntos, desde que a farmácia fora aberta, e mesmo não fazendo questão de mostrar aos quatro cantos do mundo o quanto se amam, isto já é visível pelo olhar deles. São um dos casais mais lindos que já vi!
Wesley apenas bufou, indiferente. – Ah, então quer dizer que você é mais uma dessas pessoas que acreditam no amor verdadeiro? – Ele riu brevemente, um tom incrédulo em sua voz ao acrescentar: – Que perda de tempo.
– Como disse? – Voltei-me a encará-lo, sentindo-me ofendida por seu comentário. – O amor não é perda de tempo, é o sentimento mais lindo que existe!
– Ah, perdão, senhorita romântica, mas eu acho que é perda de tempo, sim. Principalmente acreditar que ele vai durar a eternidade; a verdade é que isso não acontece mais.
– Então como aqueles dois estão juntos? – Rebati.
– Você não sabe há quanto tempo eles estão juntos, pode ser há cinquenta anos como também ser uma relação com menos de cinco. Você não sabe de todas as coisas.
– Para sua informação, eles estão juntos há cerca de sessenta anos, e eu bem sei disso porque eles viviam nesse mesmo bairro desde que os meus avós maternos residiam aqui, antes mesmo da minha mãe nascer. – Faltou pouco para, nessa explosão de palavras, estourar-lhe os tímpanos. – Você é que está se achando o espertinho por aqui.
– Tanto faz. Esse sentimento não vale a pena, de qualquer forma. Não tem para quê perder tempo esperando seu príncipe encantado, Cinderela, os tempos são outros. – Ele me olhou fixamente, e, parecendo meio hesitante, voltou seu olhar para a frente do estabelecimento. – Agora a gente só se diverte, não tem precisão alguma dessa ladainha de amor verdadeiro.
– Você não sabe do que está falando. – Sibilei furiosa, mas com uma vontade nervosa de chorar. De raiva.
– Pois bem, continue a se iludir, minha cara. – Ele encarou-me de canto de olho, e um brilho repentino cruzou por seu olhar, desaparecendo tão rápido quanto se fora visto. – Feliz da Andrea que já reconheceu essa realidade.
[...]
– Filha, telefone para você!
Já devia fazer uns quarenta minutos que eu estava deitada na minha cama, encarando o teto acima de mim, ainda perplexa com as revelações daquela tarde. Era estranho pensar que Wesley, e tantas outras pessoas, mantinham aquela mesma visão sobre o amor e os tempos modernos, sobre a então diversão e os prazeres temporários. Honestamente, no meu mudinho pessoal, cercada por amigos que acreditavam e vivenciavam tal sentimento, eu nunca pensei que discutir sobre aquilo com alguém contrário à minha crença seria tão desgastante. E tudo só se tornou ainda pior quando, ao fim do expediente, uma loura siliconada passou brevemente pela frente da farmácia e, mesmo sem adentar ao lugar, piscou para Wesley e falou: “Me diverti muito com você ontem à noite, gato. Espero nos encontrarmos por aí novamente.” Isso só me deixara ainda mais atordoada, e agora eu me encontrava estática na cama. Por isso mesmo levara alguns minutos para que eu me desse conta de mamãe batendo na porta do quarto, avisando sobre o telefone.
– Ah, desculpe-me, já estou indo. – Gritei, ouvindo seus passos se afastarem ao longo do corredor de meu quarto.
Levantei num pulo e saí apressada do quarto, descendo as escadas e indo ao encontro do telefone na sala de estar. Era Leandro.
– Ei, Susana, achei que estava viajando. – Ele soltou um risinho do outro lado da linha.
– Ah, Leandro, pensei que soubesse que eu estava passeando pela Torre Eiffel. – Brinquei, sentindo-me mais leve. – O que foi dessa vez?
– Bem, eu, a Clara, a Anneliese e o Felipe estamos na lanchonete em frente à pracinha; o Felipe disse que tinha novidades, e liguei para saber se você não estaria a fim de vir aqui também.
– Bem, tive um dia cheio hoje no trabalho, então... quais são as vantagens? – Ri.
– Pizza aos quatro queijos, milk-shake e tudo por conta minha e do Felipe. O que acha?
Nada como a companhia dos amigos para esquecer-se dos pesares...
– Guardem meu lugar, já estou chegando. 

2 comentários:

  1. Eu. Odeio. O. Wesley. Sério, essa coisa dele querer convencer a Susana de que amor verdadeiro não existe foi chata demais =/ Só mesmo os bons e velhos amigos da Susana para salvarem o dia, hehe!
    Como de costume, ansiosa pela continuação.
    Beijos! ♥

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  2. Você não imagina o quanto entendi o jeito de pensar da Susana nesse capítulo... Porque penso como ela. Apesar de que, em uma roda de amigos, eu não faça questão de "defender o amor" por saber que são argumentos jogados fora e a chance de pagar de boba, costumo ser muito romântica. Tanto é que tento passar isso em muitos dos meus textos. Não entendo muito como estão as coisas hoje em dia, sabe? As pessoas não se importam mais em se conhecer, só querem diversão por uma noite ou duas. Enfim, incrível o capítulo, vou correr a ler o próximo agora!

    Beijos ♥ Jeito Único

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