19 março, 2014

[WebSérie #2] A Fórmula do Amor - Capítulo 20

Este capítulo é parte integrante da WebSérie original "Legally Friends", escrita por Sâmella Raissa. Para ter acesso aos capítulos anteriores, clique aqui. Favor não copiar quaisquer partes do texto sem a devida autorização da autora.

Veio a tempestade. Cadê a bonança agora?

– Susana, fecha as janelas do depósito que está se preparando uma tempestade legal lá fora!
Eu estava repondo alguns medicamentos no estoque quando Andrea gritou de repente. Agachada ao lado das estantes, minha visão não chegava com clareza nas janelas abertas do outro lado do cômodo, mas quando levantei e aproximei-me delas, me surpreendi com o céu nublado e o clima úmido, e rapidamente fechei-as. Segundo o protocolo de trabalho de Marcos, eu e Andrea já estávamos dispensadas e poderíamos ir para nossas casas, antes que o tempo caísse, mas ao que parece esse tópico seria ignorado naquela noite. Mal retornei às estantes e fechei a caixa que faltava e o temporal caiu de uma vez só. Alguns segundos de chuva normal até chegar o primeiro minuto e a chuva se intensificar. E, logo que cheguei ao balcão do estabelecimento, reparei que a intensidade era maior que eu imaginara. Andrea lutava com as portas de entrada para fechá-las antes que molhasse tudo dentro da farmácia. Sem esperar o pedido, corri para ajudá-la e, com muito esforço, conseguimos fechá-las e evitar que a farmácia alagasse de vez.
Encostadas à porta, sentindo as gotas de chuva batendo furiosas no vidro, ficamos nos recompondo por alguns segundos, a respiração pesada e mil indagações sobre como faríamos para chegar em casa.

– Caramba, por essa eu não esperava. Foi tão de repente! – Ela dizia, parecendo incrédula por constatar a quantidade de água que caía mundo afora. – Estava tão estio e ensolarado quando saí de casa.
– Bem, quem disse que nossa cidade pode ser medida na meteorologia? – Dei de ombros, um pouco pesarosa. – O clima daqui é a própria imprevisibilidade.
Ela soltou um risinho de como quem concorda, e logo nos afastamos da porta. Marcos desceu as escadas de sua casa no primeiro andar nesse exato momento e conversou conosco sobre a saída, pois, de acordo com a intensidade que caía, aquela chuva parecia não ter hora para acabar. Enquanto eles falavam, aproveitei para ir logo ao banheiro e trocar de roupa. Uma básica retocada na maquiagem e voilà, eu estava pronta para encarar aquela chuva. Com sorte, a chuva se manteria estável possibilitando que eu fosse até a pracinha em frente e pegasse um táxi.
Mas não foi bem isso que ocorreu. Ao sair do banheiro, deparei-me com Andrea já pronta, agarrada à mochila e sentada de costas para o balcão, mexendo no celular. Até então a chuva caía com uma força fora de série, e a minha ideia foi rapidamente descartada. No entanto, ao perceber minha presença, Andrea olhou em minha direção e deu de ombros, fazendo pouco caso, dizendo:
– Já arranjei uma carona para a gente.
[...]
Já havia se passados vinte minutos de viagem e eu continuava com a testa encostada ao vidro fechado do carro, vez ou outra batendo a cabeça no teto não muito alto quando o carro passava por alguma lombada. Da mesma forma, meu olhar continuava fixo à paisagem chuvosa a minha frente, e eu só me permitia mudá-lo quando olhava para Andrea, ainda que pelo espelho retrovisor. Sentada no banco traseiro, ela continuava vidrada no celular e parecia esquecer-se (ou simplesmente ignorar) a tensão que pairava dentro do carro, mais precisamente no banco da frente. Inicialmente havia ficado feliz por saber que minha amiga havia pensado não apenas na carona dela para casa, como também na minha, mas logo que vi quem seria o motorista meu sorriso desvaneceu. Por um segundo, fixei os pés no chão e não me movi um centímetro, cogitando esperar até a noite toda para poder ir para casa no ônibus ou num táxi, mas Andrea bateu o pé e não saiu de lá até que eu estivesse quietinha dentro do veículo. Como se não fosse irritação o suficiente, porém, ela ainda me fez sentar no banco do carona, alegando que ela morava mais próximo e que logo sairia, de forma que eu deveria ir na frente por morar em um lugar mais longe e contramão. E assim a viagem seguiu, ela feliz da vida atrás por poder ignorar as farpas e faíscas imaginárias que eram trocadas no banco da frente.
Obrigado pela irmã a nos dirigir a nossas casas e ainda a me aturar ao seu lado, Wesley permanecia imóvel, movendo-se apenas ao necessário da direção e sequer direcionava olhares para mim ou mesmo para a irmã. Parecia concentrado na direção, mas eu bem sabia que ele estava incomodado com aquela situação tanto quanto eu. No entanto, em alguns raríssimos momentos que meu olhar parou sobre ele, percebi-o um tanto impaciente, e seu olhar, mesmo que de lado, parecia bem mais ameno que de costume. Por um segundo desconfiei do que poderia estar acontecendo, mas um lembrete me fez encarar a realidade de que suposições por alto não são uma boa ideia, então logo tratei de voltar meu olhar à janela e esperar o martírio passar.
Foi então que percebi o carro diminuir a velocidade e parar numa ruela não muito movimentada. Como não havia sinal à frente, soube que ele havia estacionado o carro, e foi quando ouvi o baque surdo da porta traseira ser fechada e percebi Andrea afastar-se do veículo, indo em direção a uma casa de tintura branca cuja cerca cinza já desbotava a cor. Antes que eu pudesse falar mais nada, ela bradou:
– Tentem se aturar pelo menos por essa noite, ok? – E, falando mais diretamente com o irmão, deu um sorrisinho de lado e falou, um brilho pequeno no olhar: – Não vá se atrasar demais para o jantar, viu, maninho? – E marchou em direção à casa, enquanto um silêncio irritante e intrigante pairava no ar do automóvel.

Nesse momento, percebi que a chuva havia diminuído e estava mais branda. Cogitei agradecer pela carona e sair do carro ali mesmo, em busca da parada mais próxima, mas quando direcionei meu olhar à Wesley, ele simplesmente passou a marcha e o carro voltou a funcionar. Pelo visto eu ainda teria de continuar com aquela carona. Eu só esperava que o tempo passasse. De preferência, bem rápido. 

Um comentário:

  1. Eita, parece que que a Susana foi brevemente sequestrada pelo Wesley - certo, foi só uma carona, mas pelo clima de tensão no ar... Sei não, viu. Haha' brincadeira! O Wesley pode ser realmente irritante e imaturo às vezes, mas no fundo acredito que ele não seja má pessoa.

    Sabe, Sâmella, mesmo sem a suposta tal da inspiração que você mencionou na introdução do capítulo anterior, você continua desenrolando cenas incríveis e eu continuo amando esta história! E, depois deste capítulo, estou louca para saber como a Susana vai lidar com a atual situação...

    Beijos ♥ Jeito Único

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