25 março, 2014

[WebSérie #2] A Fórmula do Amor - Capítulo 21

Este capítulo é parte integrante da WebSérie original "Legally Friends", escrita por Sâmella Raissa. Para ter acesso aos capítulos anteriores, clique aqui. Favor não copiar quaisquer partes do texto sem a devida autorização da autora.

Desabafos de um coração sem rumo

Saímos da Rua Jardim e viramos à esquerda na Rua das Palmeiras, e seguimos direto até chegar a ponte que ligava as duas grandes avenidas de Costanza. Em momento algum ousamos trocar uma única palavra e, de repente, tudo o que se ouvia eram nossas respirações seguidas das pequenas gotas de chuva que batiam no para-brisa. De repente me peguei pensando que, pela primeira vez desde que começara essa rotina diária de casa > escola > farmácia > casa, nunca havia enfrentado uma viagem tão longa, apesar de a farmácia ficar localizada próximo ao centro da Rodovia dos Alfaiates, e meu percurso até em casa não passar de 40 min.. Naquele dia, porém, devido aos vinte e cinco minutos que levamos para deixar Andrea em casa, eu contaria com uma viagem de mais ou menos uma hora, e eu não podia querer isso menos como naquele momento.
Continuamos seguindo direto na rua até nos aproximarmos da ponte. Passando por ela, percebi que algumas singelas decorações para o Dia dos Namorados adornavam as hastes e cabos de segurança da construção, juntamente com algumas luzinhas discretas em tons de rosa e vermelho. Se tinha uma coisa que eu gostava muito onde morava era o espírito festivo da cidade. Não importava qual fosse a data, ela sempre era lembrada de alguma forma, sendo esta geralmente por decoração.
Observando aquela decoração delicada, rapidamente me vi suspirando e sonhando em um dia comemorar uma data tão linda como aquela. Já havia namorado um rapaz anteriormente, mas o namoro durara entre agosto e novembro do mesmo ano, impossibilitando qualquer decoração relacionada – mas, no fundo, eu sabia que o Marcelo não teria feito muito caso se tivéssemos tido a chance de passar um único Dia dos Namorados juntos. E, vidrada nos ornamentos românticos como eu estava, não percebi, ao meu lado, um Wesley muito inquieto e visivelmente nervoso se remexer no banco, olhando-me de esguelha. Quando me voltei para a frente novamente, deparei-me por um instante com seu olhar ameno e inseguro pairando sobre mim, enquanto o sinal estava fechado. Fingi não ter dado importância ao fato e continuei quieta e distante de qualquer contato. Não pretendia voltar a falar com aquele indivíduo novamente.

Nesse instante, meu celular tocou e fui obrigada a dispensar meus pensamentos distantes do rapaz ao meu lado e dar atenção a papai no telefone. Mas, para todos os efeitos, o clima incômodo no carro acabou me afetando, afinal.
– Como você está, filha? Tentei ir te buscar na farmácia, mas não consegui sair mais cedo do trabalho hoje. Sua mãe está muito preocupada aqui, e queremos saber se ainda precisa de transporte. – Sua voz estava aflita e preocupada, e eu podia ouvir breves sussurros de mamãe ao fundo.
– Não precisam se preocupar, já estou indo para casa. – Respondi-lhes rapidamente, e pensei ter notado um tom um pouco frio em minha voz ao sair. Acrescentei-lhes por precaução: – Mas pode ser que eu ainda demore um pouco a chegar, então não precisam ficar preocupados. Logo mais estarei aí.
– Certo, filha. Mas podemos saber com quem você está vindo? – Ele indagou um pouco desconfiado.
– Olha só, a bateria do meu celular está acabando aqui, preciso desligar. Falo com vocês quando chegar aí. Tchau. – E sem esperar uma resposta, encerrei a chamada e no segundo seguinte me vi com o coração apertado por ter me despedido tão friamente de meus pais. Por outro lado, não sabia como falar-lhes que estava de carona com Wesley, nem muito menos imaginava qual seria a reação deles perante à notícia, então achei melhor falar sobre isso depois, com mais calma. Mas eu sei que podia ter sido mais agradável ao telefone.
Guardei meu celular na bolsa, pesarosa, e já ia voltar a me perder em meus pensamentos durante a viagem quando, de repente, Wesley indagou:
– Precisava mesmo descontar o seu humor com seus pais desse jeito? – Sua voz saiu num sussurro, mas ainda assim audível o suficiente para meus ouvidos. Apenas encarei-o, pega de surpresa por aquela pergunta e sem saber o que responder. O sinal continuava fechado. Engarrafamento justo agora?  Desviei o olhar, tentando fugir de um possível – e doloroso – interrogatório, mas Wesley continuou a me encarar, como se esperasse uma resposta. Em seu olhar, porém, percebi que havia muito mais perguntas a serem respondidas.
– Isso não é da sua conta, Wesley. – Respondi, quase tão fria como antes.
– É da minha conta, sim, porque eu sei que só está assim por minha causa. – Ele falou, as mãos apertando a direção, a mandíbula um pouco cerrada.
– Ah, então agora você reconhece o mal que você me fez? – Ironizei, num riso nervoso.
– Eu já havia reconhecido isso antes. Só que agora é você quem não reconhece o momento de perdoar alguém.
– Perdoar? Olha só quem fala! – Soltei uma risada histérica que mais beirava a incredulidade.
– Por que a surpresa? Você viu isso com seus próprios olhos, só não quer dar o braço a torcer! – Feliz do fato de estarmos com as janelas fechadas. Do jeito que nosso tom de voz estava aumentando naquele diálogo nada amigável, pensei que, do contrário, alguém se aproximaria e pediria que nós parássemos. O trânsito já estava caótico demais sem nossa gritaria como um adicional aos demais presentes ao redor.
– Não me venha com mentiras agora, Wesley! Você nunca tentou se redimir de forma alguma.
– Não? Como não?! – Dessa vez, porém, observei-o virar-se para mim e me encarar com um olhar consternado, trincando os dentes. Mordi os lábios discretamente, receando sua postura atual. Eu ainda não sabia totalmente do que ele era capaz. – E aquela carta que eu escrevi para você, hein?! Vai me dizer que não significou nada?! – Sua expressão era série e acusadora, e percebi-me encolher um pouco no banco, contrariando-me totalmente com minha falta de expressão. Porque, na verdade, eu não sabia o que expressar naquele momento. – Eu fiquei muito mal desde aquela confusão e não aguentava mais pensar no que eu havia lhe causado com aquilo! Por isso passei dias tentando te escrever a droga daquela carta, escolhendo as melhores palavras possíveis, totalmente desesperado para consertar essa situação, passando noites de insônia pensando em qual seria sua reação, e você chega para mim agora e diz que eu nunca tentei me redimir com você?!
Bufando de raiva e soltando todos os palavrões possíveis, virou-se novamente e apoiou a cabeça na direção. Eu, por minha vez, não sabia o que nem como reagir a tudo o que tinha ouvido, simplesmente porque não sabia de nada daquilo. Foi então que notei a expressão séria e furiosa de Wesley se transformar em um misto indecifrável de emoções. Raiva, ódio, tristeza e outras que não soube identificar. E então observei algumas lágrimas discretas deslizarem por seu rosto. Fiquei sem chão.
O que eu poderia fazer? Sentia-me culpada por toda aquela confusão, mas ao mesmo tempo sabia que não havia tomado conhecimento sobre algumas coisas e me sentia... perdida.
Passado alguns segundos de todo aquele atordoamento, resolvi reaver a conversa, mantendo-me calma e sendo o mais sincera que eu podia.
– Wesley... – Ele abriu os olhos e olhou-me de esguelha, com uma expressão mais amena, mas ainda arrasada. – você disse que me escreveu uma carta? – Ele assentiu brevemente. – Desculpe-me, mas não recebi carta alguma sua.
– Como não? Eu mesmo fui até a sua casa lhe entregar, e dei-a a sua mãe. E isso já faz uma semana. Como pode não ter lido ainda?!
– Não sei, mas eu simplesmente não recebi carta alguma. Tem certeza de que entregou na casa certa? Mas, antes... como descobriu onde eu morava? – Indaguei, surpresa.
– Implorei ao Marcos e, depois de muito tempo, ele me deu. – Ele fez pouco caso, e, então, erguendo a postura novamente, parecendo um pouco mais recuperado das explosões anteriores, acrescentou: – Tenho certeza de que entreguei no endereço certo e mais ainda de que dei a carta à sua mãe, que me afirmou que iria lhe entregar. Você já a devia ter lido à essa altura.
– Desculpe-me, mas eu realmente não estava sabendo sobre ela até você me contar. E, de qualquer forma, me... me desculpa por tudo o que eu falei antes. Se eu soubesse antes disso, eu...
– Ah, esquece. Eu só... queria que você soubesse que eu realmente me arrependo por tudo o que te disse naquele dia na farmácia, e por ter sido tão... insensível. Não que eu seja todo sentimental agora, mas... eu sei que o respeito é o mesmo independente da situação. Por mais que eu ainda ache suas ideias sobre o amor muito suspeitas e duvidosas, eu não tinha direito algum de tentar mudar sua opinião, e peço que me perdoe.
Digeri aquele pequeno, mas significativo, pedido de desculpas e fiquei calada. Era uma coisa e tanto para processar e uma parte de mim insistia em questionar a sanidade de Wesley, mas o meu coração me dizia que aquelas poucas palavras eram de pura sinceridade, então restou-me pensar no quanto a vida – e as pessoas – podem nos surpreender às vezes.
Antes que eu percebesse, um pequeno sorriso de gratidão misturado com surpresa formou-se em meus lábios. Ao meu lado, Wesley voltava a manejar os controles do carro, preparando-se para seguir o trânsito que, enfim, voltava a andar. Ao notar meu sorriso por um momento, apenas correspondeu com um meio sorriso irônico, dizendo:
– Só... não se acostume com esses momentos emotivos de minha parte, ok? Isso não vai mais se repetir. – E logo estávamos novamente em movimento, seguindo para minha casa.
Por um segundo, pude jurar ter visto algo mais naquele seu sorriso misterioso. Mas então ele desapareceu, e pensei ter confundido um pouco as coisas.

Havia passado por fortíssimas emoções e grandes surpresas naquela noite. E algo me dizia que havia muito mais coisas a serem descobertas... na hora certa. 

2 comentários:

  1. Okay, talvez o Wesley não seja assim tão idiota. Talvez seja até uma pessoa boa... Fiquei muito curiosa para saber o que ele escreveu na carta agora. E também para descobrir essas "coisas na hora certa", hehe!
    Beijos. ♥

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  2. A gente sempre sabe que pode ser mais agradável ao telefone, mas às vezes nossos pais nos fazem umas perguntas que ficam difíceis de responder perto dos outros sem ficar constrangido, ou que precisam de uma conversa olho no olho para evitar maiores tensões... Tipo, entendo a Susana.

    Estou começando a desconfiar que toda a pose do Wesley em ser durão, meio grosso e super "galinha", não passa de uma fachada para que ele possa esconder sua verdadeira personalidade: a de um garoto sensível que, no fim das contas, tem um coração e está esperando a garota ideal para se apaixonar pra valer. Será que essa garota ideial é a Susana? Na minha opinião, seria incrível se os dois ficassem juntos. Como eu venho dizendo desde o início da web série, tenho torcido para que o Wesley assuma uma posição mais madura perante suas próprias atitudes. Em resumo, venho esperando que ele melhore seu jeito de ser.

    Beijos ♥ Jeito Único

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