15 junho, 2014

[WebSérie #2] A Fórmula do Amor - Capítulo 22

Este capítulo é parte integrante da WebSérie original "Legally Friends", escrita por Sâmella Raissa. Para ter acesso aos capítulos anteriores, clique aqui. Favor não copiar quaisquer partes do texto sem a devida autorização da autora.

A carta desaparecida e outras conclusões

A chuva voltava a rasgar o tempo fora do carro quando Wesley me deixou na frente de casa naquela noite. Desde a conversa esclarecedora daquela noite, não havíamos mais trocado palavra alguma, mas o clima ameno que pairava agora me dava a certeza de que as coisas voltavam a ser acertar. Uma parte de mim, porém, sabia que uma coisa ainda estava em suspenso, e não era como se fosse um detalhe qualquer. Era o detalhe que poderia ter evitado todo aquele mau clima entre a gente desde o início da noite, mas que estivera o tempo todo longe de meu conhecimento. Agora eu sabia. E agora eu iria atrás de respostas.
Com uma despedida vaga, mas olhares sinceros, abri a porta e corri em direção a porta de casa, observando, pouco antes de fechar a porta, o automóvel partir em meio à escuridão da noite, e só então entrei em casa.

Mia, Bella e Luke estavam recostados numa caminha tripla de cachorro em um canto da sala, e correram ao meu encontro quando me abaixei o suficiente para abraçá-los. Acarinhei-os rapidamente, e então me levantei, indo em direção à cozinha. Precisava encontrar mamãe e papai com uma urgência que eu desconhecia o tamanho. Porém, não cheguei a encontrá-los lá, nem no escritório, e mesmo o quarto deles, que estava com a porta fechada, não denunciava a sua presença por som algum. Chamei-lhes por um momento, pensando que podiam estar tirando um cochilo, mas depois de cinco chamadas desisti e voltei para a sala. De lá subi a escada e fui direto para o quarto, decidindo, agora, retirar aquela roupa toda molhada e tomar um banho quente.
E assim o fiz. Passei direto para o banheiro, tomei um banho rápido, resolvendo não lavar o cabelo, pois o cansaço já estava apontando fortemente, e então saí enrolada no roupão, escolhendo um conjuntinho básico de dormir, constituído por uma camiseta regata e um short, ambos em tom azul claro. Já estava para me jogar na cama e cochilar por um momento, sem a menor fome, mas foi então olhei de soslaio para a minha escrivaninha e vi algo sobre ela.
Aproximando-me curiosa, notei que era um envelope. Ainda estava fechado quando peguei-o em mãos, e imaginando o que seria, fui abrindo aos poucos, delicadamente, evitando rasgar o fecho tão meigo de coração. Como pensei, uma cartinha dobrada encontrava-se dentro dele, e desdobrei-a com um cuidado ainda maior do que fizera com o embrulho. Sentando-me na cama, desci os olhos pela carta e comecei a ler.

Susana,
Nem sei direito como começar essa carta. Na verdade, não sei nem mesmo o que escrever nela inteira. Já faz algum tempo que venho tentando, e, não muito diferente das tentativas anteriores, estou perdido aqui agora, novamente, sem saber o que te dizer. Só não vá pensando que eu mudei minhas ideias geniosas para o seu romantismo irracional. Ah, sem contestar, por favor, não vim aqui para brigar novamente.
A questão é: sinto-me em dívida com você. Mais precisamente, sei que fui grosseiro e rude com você e sua opinião, quando deveria tê-la respeitado – apesar de que, ei, você não o fez comigo no início também. Se alguém afirmasse isso no meu lugar, anteriormente, eu provavelmente culparia o meu gênio forte e impetuoso, mas, como a Andrea já está cansada de dizer, isso não justifica as minhas atitudes. Eu só... andava meio confuso naqueles dias, e isso também deve ter influenciado a discussão. Mas não foi justo descontar minhas confusões e raivas com você, portanto, peço-lhe desculpas. Fui um grande idiota e pensei apenas em mim, e fiz o que fiz. Desculpe-me. É verdade que, bem, eu também iria gostar de receber um igual pedido em troca, sabe, você não era a dona da razão e nem nunca será, mas... me perdoa, tá? No fundo, no fundo, eu sei que não queria ter sido tão duro com você, uma garota tão meiga e delicada (é assim que os elogios seguem para você, certo? Não estou acostumado com esse tipo de vocabulário). Sei que depois de tudo não vai querer me ver novamente, tanto é que por isso mesmo estou escrevendo essa carta. Eu só não... ah, eu só quero que as coisas voltem a ser como era antes – antes da discussão ou até mesmo antes de nos conhecermos, você escolhe o que for melhor para você. Ok, é isso. Espero que seja suficiente para aliviar a sua dor e poupar o meu coração e consciência dos pesos que ultimamente estão dominando-os. Com razão, admito.
Do idiota que partiu seu coração com uma manifestação desnecessária de machismo, desrespeito ou qualquer que tenha chamado aquele desentendimento,
Wesley

Meu queixo só não caiu totalmente porque, à essa altura, eu já estava deitada na cama, encarando bobamente o teto, sem saber o que pensar.
O que eu deveria pensar, afinal?
Não tivesse bastado a conversa no carro, agora eu me deparava com uma parte ainda mais profunda do Wesley, feita especialmente para se redimir por algo que muitas pessoas, em seu lugar, poderiam ter ignorado. E, se antes eu ficara em dúvida sobre um bom coração escondido lá no fundo, agora eu não tinha mais dúvidas. Ele sabia ser uma boa pessoa quando queria, quando deixava seu gênio forte de lado para encarar as coisas com mais sensatez.
Me sentindo quase tão perdida quanto ele descrevera na carta, eu teria continuado deitada na cama, repassando e processando todas as informações absorvidas naquele longo dia, mas então escutei uma batida na porta. Sem perceber, eu a deixara aberta, e vi mamãe e papai parados ao batente, ambos observando-me cautelosa e ansiosamente. Decerto esperavam que eu questionasse à respeito da entrega tardia da carta, ou simplesmente sobre sua ausência. No entanto, nada falei. Continuei calada, olhando deles para a carta em minhas mãos, repetidas vezes, até que mamãe aproximou-se. Sentando-se na beirada da cama e encarando-me com seus doces olhos azuis, disse:
 – Ele é um bom garoto.
– Acredita mesmo nisso? – Indaguei, num sussurro de voz.

– Sim. Ele apenas não sabe como ser assim realmente. Mas, no fundo, ele é, sim. – E, abaixando-se, beijou minha testa e concluiu: – Durma bem, meu amor. E seja feliz em suas escolhas.

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