21 dezembro, 2014

[#PHpoemaday] De volta ao lar

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| #PHpoemaday | Dia 20 | Seus Pecados |
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A garota remexia freneticamente os cachos dourados durante o trajeto até o pequeno interior onde se dirigia. Àquela hora da manhã, tendo adquirido a passagem com antecedência, não precisou sucumbir a um ônibus lotado de pessoas vindas dos mais diversos lugares; naquele, havia apenas mais outras quatro, sendo que duas dormiam, enquanto uma outra assistia algo em um DVD portátil, e o outro apenas observava a paisagem fora da janela, sem realmente parecer ligado ao que ocorria ao seu redor. Dessa forma, Alissa pode descansar com calma no ônibus durante o longo trajeto até a casa dos seus pais.
Já havia quase trinta anos que ela não voltava para casa, e, no geral, nunca parava para se comunicar direito com os pais. Estava sempre fazendo comentários concisos do outro lado da linha enquanto dividia-se entre fazer cabelo, maquiagem e vestir-se. Nunca tinha uma folga, e apesar de ser apaixonada pelo o que fazia, seu corpo de mulher de 44 anos já começava a cobrar pela rotina agitada.
Estava adormecida quando, de repente, sentiu o baque da testa contra o vidro da janela, e, acordando em um sobressalto, percebeu que o ônibus já se aproximava da humilde rodoviária. Ao redor, havia apenas um descampado de terra, e para evitar a caminhada intensa debaixo do sol, muito embora ainda fossem 08h40, logo ao descer do transporte ela chamou um dos poucos táxis que faziam parada no local, e deu-lhe o endereço. Quarenta minutos de carro, cujo silêncio só não era presente graças ao rádio que estava sintonizado em alguma estação de blues antigo, e ao atravessar alguns campos verdes, não demorou muito até que ela se visse diante da rua onde nascera e crescera.
Apesar de ser um interior humilde, a região tinha hospitais, escolas e mesmo universidades, além de um shopping de estrutura mediana que comportava um limite agradável e necessários de lojas. Lembrou-se, vagamente, com um sorriso, do quão alegre fora sua infância ali, ora correndo com os colegas por entre os descampados de terra, ora tomando banha no riacho, e até mesmo, no auge dos seus 12, 13 anos, galopando por entre alguns pastos, com os cavalos de uma vizinha grande amiga da família. Na época, porém, isso não fora o suficiente para que ela desse maior valor à vida que levava, e a partir do momento em que começou a investir no teatro e terminou por despontar no mundo do cinema e da TV, guardou a memória com um borrão negativo. Mas, agora, parecendo voltar no tempo para aqueles anos dourados, percebia o quão sortuda ela fora, mas o quão, mais ainda, ingrata era por ter se esquecido de sua terra natal por tantos anos, desde que se tornara famosa.
O carro, enfim, contornou uma viela estreita e logo mais Alissa mirava o portão cinza a sua frente com receio e expectativa. Ao fundo, reconhecia a estrutura simples da residência onde morara no passado, já com a tinta desgastada pelo tempo. Na pequena varanda de entrada, havia uma cadeira de balanço onde um senhor cochilava tranquilamente, com um jornal caído sobre sua barriga. Com um visível esforço, ela reconheceu tratar-se de seu pai, e então virou-se para o taxista, pagando-lhe pela corrida e saindo do veículo já com a mala em mãos. Não precisou de nenhuma campainha para anunciar sua chegada ou abrir a porta, visto que a região tinha um índice de criminalidade baixíssimo e, sendo assim, a mãe sempre mantinha o portão de entrada aberto.
Adentrou pela pequena propriedade sem saber ao certo o que esperar. Sabia que havia sido uma péssima filha ao ter negligenciado a própria relação com os pais durante todos esses anos fora, uma vez que, antes de tudo, eles haviam sido os maiores incentivadores dos seus sonhos, e sabia que, sensível como era, sua mãe podia estar tremendamente arrasada e permanecer instável com ela por dias. Ela teria a mesma reação, na verdade, se recebesse a filha de volta a sua casa quase trinta anos depois que ela a abandonara para seguir com uma carreira artística no exterior. Por isso, ao chegar na varanda e não mais encontrar o pai repousado na cadeira – provavelmente a havia visto e se levantando enquanto ela caminhava a passos lentos de cabeça baixa desde a entrada – espantou-se com o quão distraída em seus próprios pensamentos ela ainda era. Lembrou-se, então, da mãe repreendendo-a por isso quando pequena, até que sentiu alguém caminhar em sua direção. Alissa ergueu o rosto, deparando-se com a figura fragilizada da mãe, que já passava dos setenta, e ambas permaneceram estáticas por um longo tempo. Recobrando as energias, porém, Alissa depositou a mala no chão de terra ao seu lado e sorriu timidamente para a mulher que lhe dera a luz. Mesmo depois de tantos anos, os cabelos grisalhos e algumas rugas aparentes pelo rosto não escondiam a beleza que Marina possuía, e Alissa era feliz por ter herdado tal beleza.
Aproximou-se acanhada da mãe, ainda sem saber qual seria a reação dela agora a sua frente, mas, surpreendendo-a totalmente, Marina apenas assentiu como quem faz um convite de aproximação e abraçou a filha terna e longamente. Não demorou muito para que choros pudessem ser ouvidos, principalmente por parte de Marina, enquanto o marido apenas observava as duas, no batente da porta, uma lágrima singela escorrendo pelo canto do olho, feliz por ver mãe e filha se reencontrando, e, assim, dando-lhes seu devido espaço. Sabia que elas tinham muito a conversar e a acertar por todos aqueles anos, mas, de repente, naquele momento, o mais importante parecia ser apenas o reencontro. Alissa sabia que havia cometido erros gravíssimos ao distanciar-se dos pais que tanto marcaram presença positiva em sua infância e adolescência, e sabia mais ainda que iria, sim, demorar até que tudo ficasse verdadeiramente bem entre eles. Mas uma vez que já havia dado o primeiro passo para a reconciliação, os próximos seriam ainda mais dedicados e preciosos.
Ela tinha sonhos, como qualquer outra pessoa. Só aprendera, naquele momento, que não deveria pô-los a frente daqueles que amava. E, por mais que tardia, aquela seria uma lição que ela levaria pelo resto de sua vida.

P.S.: Dia 21, eu sei, então sorry pelo atraso, de novo.

Beijos,
Sâmella Raissa

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