18 dezembro, 2014

[#PHpoemaday] Herói substituto

Image found here.
| #PHpoemaday | Dia 18 | Seu(s) Ídolo(s) |
Proibida a cópia ou reprodução total ou parcial do texto.

Olavo estava estático detrás da cama. Já fazia meia hora que permanecia naquela posição, sentado no chão, e, mesmo com a insistência da mãe, não saíra de lá. Dissera ser seu refúgio secreto contra alienígenas, mas a mãe suspeitava de que esses supostos aliens fossem mais reais do que ele desse a entender – em outras circunstâncias, apenas.
O marido dela, Ricardo, que já repousava na sala há algum tempo lendo um livro, percebeu a preocupação da esposa e resolveu interferir. Subiu até o quarto do menino de oito anos, e encontrou-o sentado por trás da cama, como já estava há um bom tempo. Aproximou-se a passos lentos do garoto, constatando o quão crescido ele estava, e lembrando a si próprio quando era pequeno, apesar de não ser filho dele e, sendo assim, não ter quaisquer semelhanças. Ricardo sorriu em nostalgia, e por fim, sentou-se ao lado de Olavo, que encarou o padrasto com uma mistura de nervosismo e ansiedade. Havia também um pouco de hesitação, ali, ele percebera. Gentilmente, passou o braço pelos ombros do garoto, abraçando-o de lado.
— Ei, campeão, está tudo bem?
O garoto limitou-se a assentir, muito embora não convencesse nada com aquele gesto. Ricardo suspirou.
— Tem certeza? Já faz um bom tempo que você está aqui em cima, e ainda não foi provar os cookies que a sua mãe fez hoje. Estão quentinhos!
— Não estou com vontade, só isso. — Olavo balbuciou, mirando os brinquedos espalhados ao seu lado.
— Então, estaria com vontade de comer outra coisa? Ou, já sei, que tal fazer alguma outra coisa, depois de ficar aqui por tanto tempo? — Ricardo incentivou, tentando animá-lo. — Que tal uma partida daquele seu videogame novo de corrida?
— Não quero, já disse. — Murmurou, parecendo um pouco mais impaciente. — Eu quero ficar sozinho.
— Sabe, quando a gente quer ficar sozinho assim, geralmente é porque não estamos muito legais.
O garoto nada comentou.
— Tem certeza de que está tudo bem, campeão?
, sim. — Ele respondeu simplesmente, em um murmúrio baixo.
Algum tempo se passou com ambos em silêncio. Ricardo se sentia mal por não poder ajudar o menino, uma vez que já passara por tantas situações parecidas na própria infância, mas era feliz por ter o pai ao seu lado durante todos aqueles vinte e nove anos. Olavo, porém, não havia tido a mesma sorte. Era pequeno quando Bennett abandonou Mary e ele, e até que Ricardo entrara na vida da família, há dois anos, Olavo passara sete anos sem um referencial masculino e paterno em casa. Dessa forma, os dois ainda estavam tentando construir alguma relação, mas Ricardo sentia que o garoto não retribuía 100%.
Decidindo que deveria dar mais algum espaço para o menino, resolveu levantar-se. Afagou o cabelo dele, que permanecia imóvel sentado no chão e encostado na cama, e já ia caminhando calmamente em direção a porta quando ouviu:
— Hãm, espera...
Ricardo voltou-se lentamente e agachou-se ao seu lado. Notou a hesitação novamente no olhar do garoto, e esperou pacientemente até que este resolveu falar alguma coisa.
— Já aconteceu de, quando você era pequeno, se sentir excluído entre os seus próprios amigos?
— Não, — Ricardo sentou-se novamente, olhando para ele. — porque amigos de verdade não fazem isso. Mas “colegas”, sim, e eu já passei por isso também. — Sorriu, solidário, para Olavo, que retribuiu com uma fagulha de sorriso querendo formar-se no canto de sua boca. — O que houve? — Perguntou mais claramente, a voz branda.
— Bom, é que tinha esse campeonato de futebol no colégio hoje, no intervalo, e eu já havia me inscrito para participar com meus colegas. Mas aí o Juninho apareceu querendo jogar também e eles me tiraram rapidinho para colocá-lo no time. Fiquei apenas assistindo, mas queria ter jogado.
— E eles disseram alguma coisa para essa substituição?
— Só que achavam mais justo que ele jogasse, porque ele jogava bola todo dia com o pai dele na pracinha.
Ricardo sentiu uma leve pontada no peito, embora já esperasse algo do tipo. Não era de hoje que, de vez em quando, Olavo chegava em casa chateado com uma atitude parecida por parte dos colegas. Era sempre excluído por nunca ter tido o pai com ele.
— Olha, eu não sei realmente o que é não ter pai porque o meu estava presente, mas, independente disso, eu sei que as pessoas podem ser cruéis nesses momentos, mesmo sem se darem conta. O segredo é não ligar para o que elas pensam ou fazem que contrariam você; apenas ignore, e foque naquilo que realmente vale a pena.
— E como vou saber, no meio de tanta coisa, o que realmente vale a pena focar? — A voz exasperada do garoto brincou em um tom dramático, e Ricardo deu um risinho.
— Basta pensar que são coisas, momentos únicos, e que é preciso aproveitá-los, assim como também saber distinguir as pessoas ao seu redor, quem realmente importa. Mas, na verdade, você simplesmente sabe.
— A mamãe é uma dessas pessoas? — Ele indagou de repente.
— Acho que você já sabe a resposta para essa pergunta. — Ricardo sorriu-lhe, e voltou-se para um porta-retratos na parede do quarto, onde Mary abraçava Olavo por trás, quando ele devia ter apenas uns seis anos.
O garoto permanecia pensativo, alternando o olhar entre os tênis pretos, o pensamento distante, e a moldura na parede, até que um pequeno e significativo sorriso despontou em seu rosto.
— E você? Também é uma dessas pessoas? — Perguntou.
— Bom, aí é você quem decide. — Ricardo sorriu, gentil.
Permaneceram calados por mais algum tempo até que, de repente, Olavo voltou a indagar, parecendo mais animado:
— Ainda... está de pé a corrida no videogame?
— Aí depende. Pronto para me ver no primeiro lugar? — Ricardo brincou, rindo.
— Não se eu pegar o extra turbo primeiro! — Olavo riu com ele, levantando-se depressa, e ambos desceram a escada na maior agitação.
Chegaram a sala entre tantas risadas que Mary permaneceu estática na vão da porta da cozinha, de braços cruzados e olhar admirado, observando os dois a sua frente.
Colocaram o game para rodar e em pouco tempo já estavam rindo um com o outro enquanto tentavam ultrapassar um ao outro. Mary admirava a cena com uma lágrima tímida escorrendo em um canto do rosto, vendo o filho sorrir com tanta euforia como há muito não fazia. A corrida então chegou ao fim, e Olavo era o grande campeão, tendo ultrapassando Ricardo por questão de segundos, na reta final.
— Eu venci, eu venci! — Comemorava, até que Ricardo o agarrou de lado no que parecia um abraço de urso.
— Ah, não é a toa que você é um campeão mesmo! — Ambos riam enquanto brincavam entre si. — Mas eu vou querer revanche, hein! — Ricardo riu ainda mais, atrapalhando o cabelo de Olavo, que estava preso pelo outro braço do homem.
— Ah, pai, para! — Olavo fora solto por alguns segundos, ainda rindo, sem perceber na surpresa presente no semblante de Ricardo. Este mirou Mary por um momento, alguns passos atrás deles no sofá, que simplesmente sorriu, enxugando mais uma lágrima singela no canto do olho, sorrindo abertamente.
Ricardo voltou-se para Olavo, cujo riso já começava a abrandar, e abraçou-o novamente, dessa vez sem as brincadeiras de antes, mas apenas sentindo o efeito daquela simples palavrinha pairando ao redor deles. Olavo olhou para ele, sorrindo, e abraçou-o ainda mais apertado, e Ricardo soube, naquele momento, que ele passara a ser uma das pessoas importantes na vida do garoto.

Beijos,
Sâmella Raissa

Nenhum comentário:

Postar um comentário