29 dezembro, 2014

[#PHpoemaday] Luz no fim do túnel

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| #PHpoemaday | Dia 29 | A Morte |
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A data no calendário não errava.
Naquele mesmo dia há um ano atrás, ele estava conosco.
Era manhã e o sol estava leve. A brisa suave rodeava-nos enquanto brincávamos no jardim em plena neve, numa guerra de bola-de-neve. Não me esqueço do seu sorriso naquele momento, irradiando a felicidade inerente a qualquer pessoa que se deixe levar pela beleza interior da vida. Ele certamente não desperdiçava uma oportunidade para criar novas memórias e aquela fora uma delas. Uma das mais valiosas, aliás, após uma batalha tão intensa com um câncer.
Mas nenhum de nós pensou que, de alguma forma, aquela também pudesse ser sua última grande boa memória. Pelo menos, não até aquele carro desgovernado virar na esquina e atravessar a cerca. Escondida atrás de uma árvore durante uma tacada repetida de bolas-de-neve, a cena que eu encarava mudou drasticamente antes que eu pudesse notar.
Em um segundo, as risadas.
No outro, apenas o sangue.
Não tive tempo para distinguir o carro, placa, ou sequer o motorista que mais parecia estar embriagado ao volante. Apenas corri em direção ao rapaz estirado próximo ao canteiro de flores e gritei por seu nome. Um sorriso breve transpassou seus lábios, mas que desmanchou-se tão rapidamente quanto os seus olhos se apagaram, e permaneci encarando-o em puro choque. Pura agonia. Puro desespero. Sozinha.
O que se seguiu depois disso foi um misto de confusão, desespero e descrença. Papai entrava em contato com a ambulância e a polícia, enquanto mamãe tentava consolar meu estado catatônico após o acontecimento repentino. Os pais dele, porém, choravam copiosamente pelo filho, e não demorou muito até que o socorro chegasse e eles embarcassem dentro da ambulância. Eu e meus pais seguimos de carro, alguns minutos mais tarde, limpando as marcas deixadas no jardim, enquanto um policial me indagava sobre o motorista do carro, o qual nada de útil eu pude responder. Sequer falei alguma coisa que não fosse “não sei” durante um bom tempo naquela manhã. Mas foi à tarde, quando nos aproximamos do quarto de hospital, que nos deparamos com a realidade nua e crua. Ele não havia resistido. Lágrimas jorraram dos meus pais e, novamente, dos pais dele, mas não me lembro de mais nada depois disso. Lembro apenas de sair correndo em direção ao pátio do hospital, e, ao chegar lá, gritar muito, porque, depois de tanto tempo calada numa verdadeira inércia, eu precisava extravasar. Pena que nem isso foi o suficiente para aliviar o peso e a tristeza plantados em meu coração.
E naquele momento, um ano depois, eu comemorava o meu primeiro aniversário, de dezesseis anos, na verdade, sem uma cantoria alegre ao telefone ou algum mimo que eu provavelmente doaria depois, de tão caro. Ainda era difícil acordar e saber que nunca mais veria o seu sorriso espontâneo de novo, que nunca mais iria poder fazer piada de todas as suas ex-namoradas irritantes, que nunca mais iria ter o consolo de seu abraço suave e quentinho a cada término meu de relacionamento.
Um ano sem sua presença. Mas não um ano sem sua alegria.
Porque se havia algo que eu havia aprendido com ele, é que não podemos nos deixar abalar por tanto tempo. A vida te derruba em um momento, mas logo mais você se erguerá e provará que é mais forte que ela, sempre foi. E quando somos fortes o bastante para vencer esses obstáculos, também o somos para nos desprender dos momentos ruins e nos focarmos apenas nos bons. Nos sorrisos, nos abraços, nas brincadeiras. E, de repente, temos a chance de encontrar uma luz no fim do túnel, e descobrir que a felicidade não está tão longe quanto parece, apesar de tudo.
Ele ainda faz falta, muita falta. Mas decidi não focar nisso. Seu sorriso continua presente em minhas memórias, bem como todos os momentos felizes que vivemos juntos, mas gosto de pensar que ele mudou-se para um lugar melhor desde então. 

Beijos,
Sâmella Raissa

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