10 dezembro, 2014

[#PHpoemaday] No topo do mundo

Image edited, but originally found here.
| #PHpoemaday | Dia 8 | A Montanha e o Rio |
Proibida a cópia ou reprodução total ou parcial do texto.

— Ei, Becky, acorde. Temos que continuar a caminhada.
Bernardo sussurra gentilmente na entrada da barraca da irmã, para não acordá-la sobressaltada. A garota, que anteriormente dormia serena, tranquila, começa a se mexer e logo mais a abrir os olhos, fitando o irmão-gêmeo a sua frente, com um sorriso de como quem diz ‘bom dia’. Ela o retribui da mesma forma enquanto se levanta, espreguiçando-se levemente enquanto Bernardo retorna ao centro do mini acampamento da noite anterior para juntar os demais pertences. Com as próprias coisas já recolhidas, Becky sai da barraca, deparando-se com uma manhã acolhedora e encontrando um prato gentil de pão com ovos mexidos que ela devora sem receio e sem demora. Pouco depois o local já está devidamente limpo, e eles seguem o resto da trilha em um silêncio confortável. Ambos, muito ligados à natureza, estão mais preocupados em aproveitar para ouvir os sons dela do que o de suas próprias vozes naquele momento. Desviam de alguns breves obstáculos, sempre com a ajuda um do outro em pequenas escaladas e improvisos, e logo mais chegam à reta final de sua caminhada.
Por volta do que seriam 10h, eles finalmente chegam ao seu destino e contemplam, radiantes, a extensão de água a sua frente. O rio Cleveler estende-se, glorioso, no fim daquela manhã suave, com uma água tão límpida capaz de enxergar o próprio reflexo nela. Ao redor dele, algumas árvores unem-se como que em proteção, todas elas recheadas de folhas verdes e flores e frutos diversos. Adiante, a impotência da montanha completa a paisagem que eles tanto ansiaram ver, e assim o conseguiram, após longos mas valorosos sete dias de trilha intensiva.
Por fim, voltaram-se um ao outro, ambos sorrindo genuinamente. Andaram em silêncio até um arbusto próximo a margem do rio, onde depositaram suas mochilas e a barraca, e se aproximaram novamente do rio, dessa vez, sentando-se as bordas para tocar e apreciar de perto aquela água pura e os peixes que ali nadavam. A caminhada daquela manhã, apesar de ter durado menos, em comparação às anteriores, de qualquer forma, ainda fora cansativa e, sendo assim, os irmãos se puseram de frente para o rio, sentados na grama fresca, continuando a admirar a paisagem e sua extensão. Becky se aconchegou no peito do irmão, que a abraçou de lado, sempre carinhoso, e assim permaneceram por algum tempo. Eram irmãos muito próximos desde a infância, e uma vez que compartilhavam do mesmo sonho de conhecer o rio Cleveler em uma trilha, não tiveram dúvidas de que sua última chance de realizá-lo seria naquele momento. Tinham 18 anos, recém-formados no Ensino Médio, e chegara o momento de suas vidas em que, no entanto, iriam separar-se pela primeira vez. O tempo de fazer faculdade havia chegado, com Becky aceita na Juilliard para estudar Artes Cênicas, e Bernardo em Stanford, rumo ao seu diploma em Direito. Era natural que se separassem agora, eles sabiam.
Não podiam ficar a vida inteira juntas do jeito que eram, e nem queriam realmente. Mas custava para Becky acreditar que iria acordar em casa nos fins de semana e não teria a companhia constante do irmão insistindo para levá-la até um novo pub em Nova York; da mesma forma, Bernardo ainda pensava no quão estranho seria sair com novos amigos para pubs ou discotecas sabendo que, dessa vez, sua irmã não estaria esperando por ele em alguma mesa próxima à saída, insistindo na leitura de algum livro mesmo estando fora de casa. Tinham muitas diferenças, era visível. Ela, mais tímida e introvertida. Ele, mais espontâneo e social. Mas se tinha algo que os unia era o seu amor pela natureza, motivo pelo qual estavam, agora, às margens do rio Cleveler.
Continuaram ali, sentados, admirando o rio entre uma conversa e outra sobre as expectativas do futuro. Estavam ansiosos, nervosos, empolgados, apreensivos... No entanto, sabiam que enquanto tivesse o apoio um do outro, estariam bem, não importava se estivessem separados a quilômetros de distância. E, enquanto a maioria dos amigos havia preferido a viagem de formatura, eles haviam optado pela trilha. Sua forma particular de dizer não um adeus um ao outro, mas um até breve recheado de esperanças para o futuro, em meio a uma natureza leve e bela, que certamente faria aquela memória ser uma das mais valiosas em suas vidas a partir de agora. 

Beijos,
Sâmella Raissa

Nenhum comentário:

Postar um comentário