02 dezembro, 2014

[#PHpoemaday] Para sempre na memória

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| #PHpoemaday | Dia 2 | A Memória |
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— Vamos logo, Naomi! — Gritava Miguel, exasperado e risonho, vários metros à minha frente. — Depressa, se não a perderemos!
— Mais devagar aí, Miguel... estou quase... desmaiando aqui! — Rebati, ofegante, parando por um momento, as mãos repousadas nos joelhos, recobrando um pouco do fôlego perdido até então. Ouvi novamente seus passos ágeis e velozes correrem pela grama, dessa vez, vindo agora na minha direção, um sorriso maroto brincando nos lábios e um brilho intenso nos olhos cor-de-mel. Suspirei. — Você sabe que não pode correr assim. – Repreendi-o, sem sucesso. Seu sorriso continuava intacto.
— E você não pode simplesmente ignorar que o dia de hoje é uma exceção a isso. — Tocou-me o queixo, levantando minha cabeça, ainda sorrindo. — Vamos lá, falta pouco. Não podemos perder essa chance!
De fato, não podíamos mesmo, pois era o nosso último dia por ali, então acabei cedendo sem maiores comentários. Demos as mãos e continuamos a subida pelo pequeno morro da região de Whitehorse. Apesar das notícias desanimadoras naquela manhã fatídica, Miguel continuava enérgico e, como combinado por nós no primeiro dia em que chegamos à Vancouver, era a nossa única chance de realizar um dos nossos maiores sonhos desde criança, em meio aquele fim de tarde canadense. Meus pais nos esperavam numa pracinha ali perto, enquanto os pais de Miguel organizavam algumas papeladas de exames no hospital e, logo após, arrumariam as malas, para o embarque do dia seguinte. Não posso dizer que eu estava tranquila com tudo isso, pois não estava, mas uma vez que nem mesmo Miguel parecia focar nos próprios problemas, eu quem não o deveria fazê-lo. Dizia ser seu modo de encarar as coisas sem deixar de viver a vida que ele tinha naquele momento, e sendo assim, eu o acompanhava.
Não demorou muito até alcançarmos o topo. Até então, o céu permanecia em um lindo e singelo tom de azul escuro, e passados alguns segundos sem que nada mais acontecesse, pensei termos chegado tarde. Miguel, por outro lado, não parecia pensar da mesma forma, pois continuava a encarar o alto com os olhos brilhando de ansiedade e um sorriso ainda mais intenso nos lábios.
— Viu? Não foi tão difícil subir até aqui. — Ele observou, ainda admirando o céu.
— Porque você correu que nem um esquilo fugindo de sua presa, enquanto eu mais parecia uma ursa manca lá atrás. — Revirei os olhos. Ele apenas riu. — Da próxima vez que você inventar de sair correndo, eu coloco uma corrente prendendo suas duas pernas.
— Ah, Naomi, será que não dá para esquecer isso só por um único momento sequer? Agora não é hora para isso. — Falou baixinho, desmanchando um pouco sua expressão alegre de anteriormente.
— Eu sei, mas como você quer que eu encare tudo isso, Miguel? — Questionei em mesmo tom, olhando-o de perfil. — Pode não ser grande coisa para você, mas é demais para mim.
— Como pode pensar que isso não é grande coisa para mim? É tudo ainda mais difícil e doloroso, você sabe disso.
— Sei mesmo? — Indaguei por um minuto. — Você está sempre agindo como uma criança, como se esquecesse da própria realidade, inclusive agora nessa corrida, pois você sabe que está terminantemente proibido de praticar esses esforços. Como você quer ser levado à sério desse jeito?
— Pelo simples fato de que procuro viver os bons momentos existentes na minha vida, ao invés de ficar me lamentando pelo que a medicina decretou. — Seu tom, apesar de suas palavras, era suave, e um sorriso tímido parecia querer despontar novamente em seu rosto. Suspirei novamente, baixando o olhar para minhas botas. — Eu só quero aproveitar enquanto eu estou livre aqui para viver o melhor que eu puder. E, caso você ainda não tenha percebido, — Levou o indicar até o meu queixo, erguendo-o novamente até meus olhos estarem mirando os seus. — você faz parte desses momentos especiais. — E se inclinou, plantando um beijo tímido, mas acalentador e apaixonado, em meus lábios.
— Eu só me preocupo com você. — Sorri-lhe, timidamente.
— Eu sei, e agradeço por isso. Também me preocupo demais com você. — Ele abraçou-me. — E, dessa forma, eu só quero ter as melhores recordações ao seu lado. Ainda vamos contar sobre todas elas para nossos filhos um dia. Eu creio nisso, e você?
— Eu também creio. — Senti uma lágrima despontar em um dos cantos do meu rosto, ao que ele rapidamente limpou, plantando um novo beijo, dessa vez em minha cabeça, e me abraçou de lado.
Voltamos a admirar o céu no exato momento em que ele foi lentamente preenchido e colorido por pequenos feixes de luz que iam de um canto a outro. Alguns outros pontos luminosos em amarelo e verde expandiam-se no centro, enquanto os tímidos feixes ziguezagueavam por entre os pontos, no que mais pareciam explosões coloridas de azul celeste. Em um dado momento, eles se misturaram, criando uma combinação intensa de cores que, por mais que juntas, conseguiam brilhar por conta própria no plano, nos deixando completamente maravilhados com tamanha beleza da natureza. Após mais alguns minutos de puro colorido nos céus, as cores foram se esvaindo aos poucos, até voltar ao tom de azul de antes. Demoramos algum tempo ainda admirando o céu, provavelmente repassando mentalmente em nossas mentes o show de luzes naturais dado há alguns segundos. Em seguida, encaramo-nos e sorrimos, enquanto Miguel apertava um pouco mais o abraço, aproximando-me ainda mais de seu peito. Permanecíamos em um silêncio agradável, até que ele disse:
— Viu só? Era disso que eu estava falando.
— Realmente? Esse espetáculo foi incrível! Nunca imaginei que a aurora boreal pudesse ser ainda mais linda ao vivo.
— Sim, ela deu um grande show essa noite. — Só então parei para notar que a tarde já havia terminado e estava de noite. Precisávamos voltar antes que nossos pais ficassem preocupados. Antes de mais nada, porém, Miguel completou baixinho, próximo ao meu ouvido: — Mas o mais incrível, sem dúvidas, foi poder registrar e compartilhar essa memória com você. Eu te amo, Naomi.
Senti uma nova lágrima escorrer por meu rosto, mas nenhum de nós ousou limpá-la; já estávamos imersos demais um no outro. Sentindo meu coração encher-se de alegria, fé, esperança e amor, por fim, declarei, certa sobre meus sentimentos:
— Também te amo, Miguel.

Beijos,
Sâmella Raissa

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