16 dezembro, 2014

[#PHpoemaday] Pequenos grandes gestos

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| #PHpoemaday | Dia 16 | A Respiração |
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Isadora continuava a encarar o teto acima de sua cabeça, deitada na cama de hospital com os batimentos acelerados e os pensamentos agitados. Com o namorado, Dylan, ao seu lado, segurando-lhe a mão com um sorriso de segurança no rosto, repetindo palavras de conforto, enquanto a mãe dela estava voltada aos próprios pensamentos – nem tão destoantes dos de Isadora, na verdade –, a respiração entrecortada podia ser ouvida sem muito esforço de qualquer lugar naquele cômodo. O nervosismo e as expectativas fluíam soltas pelo ambiente, e Isadora já não se aguentava de ansiedade.
O relógio na parede então anunciou as exatas 14h e, pontualmente, o Dr. Wilson cruzou a porta de entrada do quarto, com seu típico semblante sério e focado. Chegara a hora.
O médico pôs se a repassar pela última vez o que seria feito e pediu que a garota se mantivesse o mais calma que conseguisse; era fato que havia chances de não dar acerto, mas, da mesma forma, chances positivas também se sobressaiam, e todos se apegavam apenas a elas. Dessa forma, ela assentiu e ele prosseguiu a ajeitar os equipamentos ao seu lado na cadeira. Isadora observava o último frasco do remédio para congestionamento respiratório que havia tomado naquela semana, e sentia suas narinas formigarem com o ar artificial. Desde que nascera, tivera problemas respiratórios, mas a situação se agravara de tal forma que, aos sete, se viu precisando de equipamentos para prosseguir com a respiração. O que antes era um ato involuntário e natural da vida, logo mais lhe fez falta, à medida que os equipamentos aumentavam e passavam por alterações. Vez ou outra passara por algum vexame porque um aparelho parara de funcionar bruscamente, como quando Dylan precisou carregar a namorada desacordada da sala de aula até a sala da diretora certa vez na escola. Agora, já com seus dezesseis anos, tudo com o qual ela sonhava era puder voltar a respirar por conta própria. Apesar das chances mínimas, não deixava de se apegar a elas, e havia contado os dias, ansiosamente, por aquele momento.
Sendo assim, Dr. Wilson iniciou uma breve contagem regressiva, os ombros da mãe e do namorado tensos e rígidos em expectativa e nervosismo, enquanto Isadora procurava se manter calma na cama, agora já mais sentada e recostada aos travesseiros, aguardando pela sua deixa. O doutor finalizou a contagem e, entre os seis níveis existentes no aparelho respiratório, ele abaixou um deles. Isadora sentiu a respiração entrecortar-se por um momento, mas conseguindo mantê-la novamente em seguida. Em seguida, ele baixou mais um nível. Mesma reação, e mesma estabilização. A mãe tapava a própria boca com uma das mãos, em expectativa, enquanto Dylan permanecia de braços cruzados, não sabendo se orava ou se mantinha-se atento ao momento. Dr. Wilson passou para o nível três do aparelho, e uma vez que as mesmas reações anteriores ocorreram, ele pulou para o segundo nível, após olhar para Isadora e esta assentir-lhe, como a quem responder uma pergunta silenciosa.
O nível antes do primeiro era onde as coisas sempre começavam a ficar instáveis. Em tentativas anteriores, Isadora conseguira se manter estável por apenas alguns segundos, até perder o controle e sentir-se completamente sem ar, voltando de imediato para o sexto nível; em outros momentos, pior ainda, ela não conseguia mantê-la nem por um segundo. Era algo tão relativo que se podia dizer que, de vez em quando, mais parecia que seus pulmões brincavam com ela, mas era uma insuficiência com a qual ela teria de conviver pelo resto da vida, de qualquer forma. Naquele momento, porém, exatos 40 segundos haviam se passado e ela continuava firme na respiração. Dylan, que já havia se decidido por orar e segurar a mão da namorada ao mesmo tempo, tinha um pequeno sorriso ousando aparecer em seus lábios, mas se segurava, para não contar vitória antes do tempo. Um pouco mais e já se passava de dois minutos, enquanto ela se mantinha firme na cama, não mais sentindo a lufada artificial de ar adentrar ao seu nariz pelo cateter.
Até que a luz no quarto apagou pelo o que pareceram ser dois minutos, mas tempo suficiente para desligar quaisquer aparelhos e causar um visível pânico no segundo andar do prédio. A parada abrupta, então, acabou por causar um choque na garota que perdeu o foco no que fazia, e sentiu-se com falta de ar. Em um instante, a mãe estava ao seu lado, tentando mantê-la calma, enquanto o médico lutava com uma bateria de energia ligada ao aparelho, que parecia ter-se decidido não funcionar justo naquele momento. Isadora estava focada em tentar manter o pouco ar que tinha, ao passo que parou para reparar no desespero silencioso da mãe, com os olhos já se enchendo de lágrimas. Então, sem mais nem menos, Isadora resolveu focar novamente apenas na respiração, e lutou ao máximo consigo mesma para não desmaiar ou perder o controle sobre os próprios pulmões novamente. Até pouco atrás perdida em lágrimas involuntárias e pensamentos agitados, dona Caitlyn finalmente reparou, porém, no silêncio que preenchia o ambiente, notando que a filha não estava mais com a respiração forçada de antes. Reparou em seu peito que subia e descia com certa hesitação e dificuldade, mas que conseguia cumprir seu papel naquele momento tão inesperado e crucial. De repente, Isadora sentiu uma lufada pura de ar invadir seu nariz, não mais pelo cateter, e sentiu-se renovada e feliz como há tempo não era. Sorriu levemente para os presentes, encarando seus rostos surpresos e o olhar esperançoso do médico, não perdendo o foco em respirar nem por um segundo.
E como tinha que ser, por pelo menos alguns minutos, Isadora pode ter novamente um vislumbre do que era respirar por si própria. Por mais que tivesse precisado repor o aparelho e o quinto nível logo que a energia pareceu voltar, não desanimou, pois se havia conseguido daquela vez, sabia que poderia repeti-lo no futuro. Dylan, ao lado da namorada, apenas a encarava com doçura enquanto a parabenizava por um feito aparentemente banal para as outras pessoas, e concluiu, surpreso, o quão diferente algo podia significar para duas pessoas distintas. Pessoas respiram naturalmente todos os dias, algumas até nem mesmo dando-se conta realmente do ato, enquanto que outras como Isadora precisavam resgatar as próprias forças para cumprir, com dificuldade, uma tarefa aparentemente tão simples.
Pensou, por fim, que um gesto nem sempre era pequeno, e que nem toda facilidade ou dificuldade era a mesma. De repente, ao longo daquele namoro, passara a dar ainda mais valor a um gesto que sempre lhe fora tão simples, porque, no fim das contas, a vida tinha seus altos e baixos, e para sobreviver a ela era preciso enfrentá-los e, de preferência valorizar as pequenas, porém grandes, coisas. 

Beijos,
Sâmella Raissa

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