06 dezembro, 2014

[#PHpoemaday] Personalidade colorida

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| #PHpoemaday | Dia 6 | O Cabelo |
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Ângela desfilava elegantemente por entre os corredores do colégio, as mechas roxas e azuis agitando-se entre os fios naturalmente pretos, atraindo os olhares de todos os alunos. Olhares de simpatia e admiração, principalmente por parte dos garotos, e quando digo isso, eu me incluía nessa lista. Ainda era incrível se deparar com aqueles cachos e mechas tão coloridos no dia-a-dia escolar, e, mais ainda, reparar no quanto essa ousadia, de certa forma, favorecia sua beleza. O corpo escultural, o rosto bem moldado, os olhos em um tom vibrante de verde e um sorriso estonteante. E nem falemos da personalidade doce e dotada de simpatia, motivo pelo qual conseguia conquistar a todos os alunos.
Chegava a ser intenso a forma como ela se dedicava àquele cabelo, sem qualquer receio de comentários alheios, desde que ela estivesse bem consigo mesma. Vez por outra eu ainda me deparava com garotas que não conseguiam mudar sequer a cor do esmalte ou escolher uma mochila nova com medo dos comentários que poderiam se seguir, então quando uma garota como Ângela adentrava ao ambiente, esbanjando confiança daquele jeito, era quase um alívio silencioso por ter um exemplo de autoestima no colégio. As outras meninas só não entendiam como ela continuava solteira; vez ou outra era possível ouvir questionamentos do porquê disso enquanto eu atravessava os corredores do colégio, e quase sempre a resposta da Ângela era “Não aconteceu ainda, mas também não tenho pressa. Quando tiver de ser, será”. Digo quase porque, em algumas outras poucas ocasiões, com alguns alunos mais enxeridos e cheios de alfinetes por trás de suas palavras, ela era sucinta e direta: “Da minha vida, cuido eu”, pois mesmo sendo um poço de simpatia, ela também não era tola, e sabia reconhecer a quais pessoa valiam ou não a pena gastar seu tempo.
Assim, os rapazes sonhavam com uma oportunidade de namorá-la. Eu não me encaixava propriamente nessa lista, mas já havia pensado, sim, no quão incrível seria um namoro com ela. Percebia, então, em como os dias no colégio eram mais animados com ela ali entre nós, e pensava em como seria quando o Ensino Médio acabasse.
Mas, talvez, eu não devesse ter pensando isso. Porque, de repente, o ano letivo realmente acabou e muitos precisaram se separar. Inclusive ela, de nós.
Por algum tempo, tive certo receio de ver a moça de cabelos coloridos repentinamente mudada e não mais estar acompanhada das cores, como era de costume. O tempo, às vezes, se encarregava de nos pressionar a esses tipos de mudança, mas quando a reencontrei por acaso, quinze anos depois, enquanto trabalhava na livraria, em uma tarde de Outubro. Estava atrás do caixa, um segundo observando o movimento por entre as estantes e então eu me deparo com aquela leva de cachos cor-de-rosa, com leves mechas de roxo nas pontas, vindo em minha direção. Não tive dúvida alguma de que era ela, sempre com aquele sorriso estonteante no rosto. Ao seu lado, uma garotinha de mais ou menos uns dez anos, que presumi ser sua filha, e um homem de aproximadamente um metro que abraçava-a de lado. Ela chegou onde eu estava, trazendo consigo os livros que iria levar, e enquanto eu registrava as compras, observou-me por um segundo. Fiquei surpreso quando reconheceu-me do colégio e sorriu, perguntando como eu estava e iniciando algum contato depois de tanto tempo. Apresentou o marido e a filha ao seu lado, falando-lhes sobre eu ser um dos colegas de turma, e contou brevemente que havia morado fora e havia retornado recentemente, o que explicava ninguém do colégio ter conseguido encontrá-la após a escola. Falei um pouco sobre minha vida atual, quando ela perguntou, e teríamos continuado a conversar por mais algum tempo, se eu não precisasse atender outros clientes. Ela despediu-se, sugerindo pensar na ideia de reunirmos a turma do colégio qualquer dia, e eu acenei em concordância, observando-a desaparecer, com a família, por entre a multidão que predominava naquele dia na livraria. Apesar do reencontro inusitado e apressado, sorri, aliviado, ao constatar, porém, que sua confiança e doçura naturais não haviam sido vencidas pelo tempo, nem muito menos os cachos coloridos.

Beijos,
Sâmella Raissa

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