03 dezembro, 2014

[#PHpoemaday] Quando é preciso seguir em frente

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| #PHpoemaday | Dia 3 | O Esquecimento |
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Aquela manhã de domingo amanheceu pesada; ao menos foi o que Chloe constatou ao admirar a paisagem em frente a sua janela aberta e não encontrar ou ouvir um único cantar de pássaros repousados na árvore em frente ao seu quarto. A brisa suave, que já era de costume ao raiar do sol, também não estava presente. Ela estranhou. Era como se o própria clima, os pássaros, a natureza... estivessem alertando-a de que aquele dia poderia não ser como ela esperava. No fundo, ela também tinha um leve pressentimento disso, mas voltou a ignorar esses pensamentos, pois sabia que aquele seria um dia decisivo em sua vida naquele momento. E quem sabe, no seu futuro.
Arrumou-se em frente ao espelho. Um vestidinho floral cor-de-rosa e uma sapatilha bege, com os cabelos devidamente arrumados em um rabo de cavalo que sua mãe certamente ousaria dizer como perfeito, grande admiradora de tudo que a filha fazia. Em seguida, pousou os olhos em duas molduras pequenas no criado-mudo ao lado da cama. Sorriu, nostálgica, ao relembrar os dois lindos momentos ao lado de Jackson. A primeira foto, tirada no dia em que ele a pediu em namoro oficialmente, em plena festa de amigo-secreto de sua turma de 2º ano, no fim do ano letivo, focava nos dois, em um beijo singelo mas apaixonado, enquanto seguravam, cada um, o seu respectivo presente. A segunda, por sua vez, já marcava exatos nove meses de namoro, em uma comemoração particular na praça do centro da cidade, onde ambos sorriam apaixonados um para o outro, em um ângulo verdadeiramente profissional.
Já fazia um bom tempo que Chloe não sabia o que era se sentir daquele jeito, porém. Já havia se passado seis meses desde o acidente que haviam sofrido certo dia, quando o carro que Jackson dirigia perdeu o controle na estrada e capotou com os dois dentro. Apesar de ter fraturado uma costela, Chloe já havia se recuperado totalmente, mas o mesmo não podia ser dito sobre Jackson, que, além de ter a perna cortada e atravessada por entre as ferragens do automóvel, também bateu a cabeça, o que ocasionou um lapso de memória e ao acordar após um mês em coma, simplesmente não reconhecia a garota com quem havia vivido momentos tão maravilhosos. Foi difícil para ela suportar a dor de não ser reconhecida, mas o médico garantiu que ele iria recordar, no momento certo. Até lá, Chloe passou a ser visita frequente na casa dos Tate conversando com o rapaz, e jogando pequenas pistas para que ele viesse a lembrar-se dela. Em um determinado dia, em desespero, acabou jogando toda a verdade sobre eles para o rapaz, e sua dor de repente intensificou quando, após algum tempo de silêncio, ele continuou alegando não lembrar-se de nada daquilo. Pelo olhar e tom de voz que ela já conhecia tão bem, constatou, tristemente, que ele estava sendo sincero.
Naquela manhã, no entanto, seu coração batia descompassado com a possibilidade da lembrança. A mãe do rapaz a havia telefonado na noite anterior, pedindo que ela viesse logo pela manhã até sua casa, pois ele dissera, enfim, reconhecer a garota e, sendo assim, queria falar com ela. Ao comunicar isso, porém, não apenas a família do rapaz, bem como a sua própria, haviam-na alertado que as coisas ainda podiam ficar instáveis por um tempo. Mas isso não importava, Chloe continuaria sua espera até que seu romance fosse reestabelecido. Ela só se preocupava, porém, com aquele pressentimento pesado que continuava a assolá-la.
— Está preparada? — Jason apareceu no vão de sua porta, cabisbaixo. Ele era o melhor amigo do irmão de Chloe e, uma vez que era frequentador assíduo da casa e muito querido por seus pais, estava inteirado sobre a tensão da garota e desde um certo tempo vinha procurando confortá-la nos maus momentos.
— Estou. — Ela assentiu, muito embora não com toda a firmeza que procurava transmitir e, sendo assim, andou até a porta do quarto e saiu em direção à porta, com Jason em seu encalço.
Saiu de casa expulsando os pensamentos negativos, mas de repente o descompasso já não estava mais presente em seu coração. Ele havia acalmado, como se as emoções a serem vividas a seguir não fossem das mais animadoras. Apesar disso, seguiu firme até o carro do amigo e, em pouco tempo, este estacionava na frente da casa lilás que ela conhecia tão bem, e que já não frequentava há alguns dias. Tirou o cinto e suspirou pesadamente. Antes que pudesse sair do carro, ouviu a voz baixa de Jason ao seu lado.
— Vai dar tudo certo. — Ela apenas deu um sorriso pequeno em resposta, tentando se convencer disso.
Caminhou até a porta, e antes mesmo de tocar a campainha, foi recebida pela mulher que até um tempo atrás era sua sogra, trajando um avental por sobre uma calça jeans desbotada e uma camiseta azul claro. Esta sorriu-lhe, gentil, mas Chloe ainda permanecia estática na porta de entrada. Pediu, então, para a garota entrar e subir até o quarto do rapaz. Calmamente, subiu as escadas e avistou-o sentado na cama, a perna, não mais engessada, mas com várias ataduras em volta, estirada por sobre a cama. Ele lia uma revista em quadrinhos, mas, guardando-a ao notar a presença de Chloe, fez sinal para ela entrar. Sem palavras até então. Ela sentou-se timidamente na cadeira de sua escrivaninha, percebendo o quão esquisito era ser distante daquela forma quando eles haviam compartilhado tantos beijos, abraços e declarações carinhosas em passeios pela cidade. Ele, parecendo pensar o mesmo, abaixou o semblante. Um silêncio incômodo se seguiu, até que ela finalmente teve coragem de quebrá-lo. Seu coração já não aguentava mais tanto suspense e aflição, e a atitude reclusa do rapaz não era um bom sinal.
— Então... a sua mãe me ligou ontem à noite, dizendo que você havia se lembrado de mim, não é? — Começou, receosa, a voz baixa, mais tímida que o normal. Ele apenas assentiu, aumentando sua aflição. — E então? Lembra-se, realmente, de tudo o que eu havia contado à você naquela outra vez?
— Lembro. — Sua voz saiu inexpressiva, calma, como não era muito do costume do rapaz que costumava ser tão aberto às emoções e, principalmente, a demonstrá-las. — Estava entediado aqui ontem, sem poder andar com essa perna assim, então resolvi rever aquelas fotos que você havia deixado aqui da última vez. Não lembro muito bem dos detalhes de cada acontecimento, mas tenho, sim, memória de cada um deles, o que, sendo sincero, é bem estranho, porque eu não imaginava ter esquecido tanta coisa durante esse tempo todo. — Ele deu um risinho, parecendo envergonhado.
— Realmente, foi muita coisa mesmo. Você não é bem o tipo de pessoa que gosta de ficar muito tempo parada, sabe, então a gente estava sempre saindo.
— Não tenho mais qualquer dúvida sobre isso. — Jackson riu novamente, um pouco menos fechado que anteriormente, e Chloe começou a sentir-se mais confortável naquele lugar.
— Então, bem, acredita em mim, né? Tudo bem agora? — Ela perguntou, controlando uma fagulha interna de alegria.
— Claro. — A resposta pairou por um momento, e foi quando ele notou o brilho no olhar da garota. Mordeu os lábios, assimilando o que aquele brilho específico significava, e percebeu que sua resposta havia sido um pouco vaga. Sentindo-se triste por contrariar a expectativa da garota, ele murmurou: — Mas...
— Mas...? — Apenas aquela palavra foi o bastante para destroçar o coração recém-cheio de esperança de Chloe. De repente o conforto que ela sentira, segundos atrás, havia se esvaído completamente. — O que foi, Jackson?
— Eu não tenho dúvidas sobre tudo o que você me contou, sobre todas as fotos que eu vi, e eu senti o quão incrível todas elas foram. São lembranças, momentos muito valiosos, e eu sou realmente feliz por ter vivido todas elas com uma garota tão fantástica.
— Mas...? — Ela repetiu, sabendo que, apesar de tudo, havia um porém naquilo tudo.
— Eu realmente gostaria de dar continuidade a nossa história, eu vi o quão intensa ela foi. Me desculpa mesmo, Chloe, mas, agora, eu já não estou mais tão aberto, tão envolvido nesses sentimentos como estava antes. — Ele abaixou o olhar, quase tão destroçado internamente quanto ela, por quebrar seu coração desse jeito. Mas o que ele podia fazer? Era apenas a verdade. Doía, sem dúvida nenhuma. Mas era a verdade.
Permaneceram em um novo silêncio, recheado de dúvidas e anseios e pedidos de desculpa que, no fim das contas, ao que parece, foram perdoadas pelo próprio silêncio. Chloe não queria lembrar, mas sabia que aquela era uma das possibilidades. O sentimento que antes existia, havia sido quebrado no momento do impacto do acidente, e de repente ela não tinha mais certeza alguma, uma vez que acreditara, por todo esse tempo, que o amor deles era eterno. Se foi, essa eternidade fora menor do que ela pensava.
Foi quando ela sentiu uma lágrima singela escorrer pelo rosto. Não um choro inteiro, apenas uma lágrima. Jackson também reparou-a escorrer pelo rosto dela, e sentiu-se ainda mais triste por ter sido responsável por ela. Constatou, porém, que não tinha como reverter a situação, e pensou que uma única lágrima, por vezes, conseguia ser ainda mais dolorosa do que um choro completo.
 — Me desculpa por isso, Chloe, de verdade. Você não merecia nada disso, mas eu já não sou o cara certo para você. — Ele tentou se mover um pouco na cama, agradecendo internamente por sua cadeira de escrivaninha ter ficado tão próxima dele, e acariciou o rosto da garota, que continuava cabisbaixa. — Você merece um rapaz que dedique-se ainda mais à você, que te respeite e te ame intensamente, porque eu não sou mais capaz de fazer isso. Eu queria mesmo poder ser tudo isso para você novamente, mas não posso quando o que eu sinto já não é mais o mesmo. Você merece alguém melhor.
Apesar de não ter sido uma pergunta, ela assentiu, compreensiva, mas continuou sem mirá-lo. Doía-lhe constatar que, a partir de agora, não seriam mais o casal que todos estavam acostumados a admirar e interagir. Sequer sabia se continuariam a se ver no dia-a-dia, depois dali.
— Como nós ficamos agora? — Ela murmurou, e só percebeu tê-lo dito um pouco alto quando ele respondeu.
— Honestamente, eu não sei.  Vou entender se você quiser um tempo disso tudo, porque é mesmo muita coisa para processar e eu sei... que vamos ficar estranhos um com um outro por um bom tempo. — Ele pôs os dedos no queixo da garota e ergueu-o até que eles pudessem se ver claramente. — Mas, eu realmente gostaria de, um dia, ser seu amigo. Não é porque nosso namoro não pode mais continuar que eu quero ir embora da sua vida. Eu quero continuar por aqui, como seu amigo, e poder ajuda-la sempre que precisar.
Foi da vez que Chloe chorou abertamente. Lágrima por lágrima, uma por uma, escorreu pelo rosto da garota e no minuto seguinte ela estava sentada ao lado dele na cama, acolhida em seus braços. Ele havia sido sincero ao dizer que não poderiam continuar juntos, mas estava sendo ainda mais ao declarar que continuaria ao seu lado, para o que der e viesse. E assim permaneceram, abraçados, ambos envolvidos em lágrimas e desejando um novo começo para suas vidas.
No fim das contas, Chloe tinha sua razão, porque, assim como o namoro, a amizade também era uma relação regada de amor. Se o namoro deles fora breve, mas não era esse o amor designado para eles. A amizade que se firmava ali, essa sim, não importaria os conflitos que viessem a surgir, nunca morreria. 

Beijos,
Sâmella Raissa

Um comentário:

  1. Ai, Sâmmy, você e seu talento em mexer com o emocional dos leitores por meio de palavras bem colocadas ♥ Amei, simplesmente! Eu imagino o quão difícil deve ser pra Chloe essas mudanças e esse término repentinos...
    Desculpe-me por não ter comentado em nenhum dos seus textos até o momento. Mas eu os li, sim, e estão incríveis! ♥
    Muitos beijos, amiga, e parabéns!

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