21 dezembro, 2014

[#PHpoemaday] Superficial

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| #PHpoemaday | Dia 21 | O Ego |
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A garota penteava os cabelos sedosos sentada na frente da penteadeira, a maquiagem já feita naquele rosto alvo com algumas leves sardas, e um sorriso despontava em seu rosto enquanto se olhava no espalho. Terminou de pentear os cachos, admirando a própria imagem, de uma bela moça de dezesseis anos de corpo escultural e bronzeado natural, cujos fios castanho-claro eram realçados pelos olhos verdes vibrantes. Era uma garota bonita, e ela sabia disso. Mais ainda, ela sabia que as demais garotas de sua escola não eram páreas para ela, e ela adorava lembrar-se disso.
Do outro lado da rua, o garoto vestia-se na frente do espelho, ajeitando a gola da camisa, com a cabeça erguida de como quem desfila numa passarela, observando a multidão por cima. Sorriu ao estar satisfeito com as roupas que usava, e alcançou o perfume em cima do criado-mudo, que tanto as garotas da sua escola diziam adorar – mas que, ele sabia, eram verdadeiramente atraídas pela beleza dele. Porque ele era um rapaz bonito, e não apenas sabia disso, como mantinha essa beleza o tempo inteiro.
Ambos deixaram seus quartos e saíram de suas respectivas casas. Por alguma ironia da vida – ou dos alugueis, vai entender –, além de morarem na mesma rua, a casa dele localizava-se na calçada em frente a casa dela, e não à toa que acabaram por conhecerem-se. E apaixonarem-se.
Ela via nele o cara bonito e galante com o qual tanto sonhara, além do bônus mais que inédito de ele ter alguns traços românticos. Já ele, encontrara nela a garota perfeita, de sorriso estonteante e corpo fantástico, e talvez a única no mundo que entendesse e compartilhasse de sua dedicação com a própria imagem.
Mas foi justamente isso, uma versão alternativa do ego inflado, que ambos cultivavam em si próprios, que desgastou a relação. Tinham tudo para darem certo, mas, ao mesmo tempo, tiveram tudo para dar errado, e assim aconteceu. Se estavam juntos, falavam sobre aparência. Se estavam separados, pensavam sobre aparência. No fim das contas, não existia espaço para o amor numa relação ditada pela beleza, pela imagem exterior. E, aos poucos, a garota e o garoto se distanciaram definitivamente. Mudaram-se. Ela continuou brilhando nas passarelas, embora seu brilho interior já não mais existisse. Ele continuou conhecendo e se encantando por uma garota nova todo dia, apesar de que nunca voltou a sentir os sentimentos que uma sentira com a garota do passado.
Ambos continuaram suas vidas, o exterior prevalecendo, e o interior morrendo aos poucos. O ego, no fim das contas, estava não apenas inflado, mas inflamável, e de repente, não houve mais como consertar. Fim da linha.

Beijos,
Sâmella Raissa

2 comentários:

  1. "Ambos continuaram suas vidas, o exterior prevalecendo, e o interior morrendo aos poucos. O ego, no fim das contas, estava não apenas inflado, mas inflamável, e de repente, não houve mais como consertar. Fim da linha." - Amei esse último parágrafo, amei o texto inteiro!
    Sâmmy! Conheço garotas e garotos como os citados nesse texto. Dou de cara com eles todos os dias na escola. Tão perfeitos por fora... Tão vazios por dentro. É lamentável.
    Beijos, sua linda! ♥

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